ALPINISTAS PROLETÁRIOS CONTRA ARISTOCRATAS DA MONTANHA |
Iniciada por aristocratas, a arte de subir montanhas ainda é um lazer de distinção social: o amor dos alpinistas pela natureza sempre andou junto de seu desprezo pelos habitantes locais. Mas, transformando técnicas e limitando riscos, a escalada esportiva modificou a ordem estabelecida e popularizou o alpinismo
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| por Jean-Paul Walch |
O imaginário coletivo associa facilmente subidas alpinas a superação, grandes ascensões e heroísmo. Sem dúvida porque os alpinistas procuraram por muito tempo criar essa imagem de si mesmos: “Sozinho, aquele que pratica o grande alpinismo pode conhecer tanto a grandiosidade quanto o rigor”, escrevia, em 1973, René Desmaison. Esse guia lendário não concebia sua paixão enquanto um simples esporte, mas como um “ideal no qual a vida estava em jogo”.2 De onde vem, sem dúvida, a propensão do mundo empresarial em se apropriar da imagem desses heróis com o olhar cravado sobre os cumes. Desde 1948, no entanto, alguns contestam essa visão das coisas. A revista Tourisme et Travail, próxima da Confederação Geral do Trabalho (CGT) francesa, denunciava o elitismo de uma prática que “perece do individualismo forçado da maioria de seus praticantes. Eles afirmam a ‘pureza dos cumes’, ‘solidão’, ‘distância do mundo de baixo’, ‘lá em cima, sozinho na luz’, ou ainda: ‘mais perto de Deus’. Mas na verdade eles querem ‘ficar entre eles’”.3 EmAlpinisme et compétition, publicado no ano seguinte, o bleausard(escalador de Fontainebleau) Pierre Allain defende a escalada como disciplina autônoma: “Não é apenas com o objetivo de subir nas montanhas que vamos para Bleau e ali escalamos, é principalmente porque fazemos disso um jogo que em si mesmo nos desperta paixão”.4 A Federação Esportiva e Ginástica do Trabalho (FSGT) francesa – próxima do Partido Comunista – criou, em 1953, uma “especialidade montanha” para “reduzir o alpinismo à categoria de um esporte como os outros” e, assim, “destruir o que chamam de renda sociocultural”.5 O alpinismo trabalhista nasceu com um slogan: “Eu subo na frente e conduzo aquilo que faço”. Ele retomou para si a abordagem dos “sem guia” que, desde o fim do século precedente, fixavam como objetivo se tornarem autônomos e responsáveis, em oposição aos pioneiros britânicos que pagavam guias para escrever seus nomes nos grandes picos dos Alpes. Desde essa época, os alpinistas de Genebra treinavam nas faces rochosas calcárias de La Varappe, no Monte Salève. O objetivo também era subir, mas em paredes de altitude modesta. A dificuldade estava menos ligada ao ambiente e seus perigos objetivos (fissuras, avalanches, quedas de pedras) do que à rigidez das passagens e à ausência de pontos de apoio na rocha. Possível de ser praticada o ano inteiro, a escalada que por muito tempo foi chamada de varappe se tornou no século XX um modo de treinamento para qualquer candidato a aventuras mais arriscadas em altitude, quando o verão chegasse. O aperfeiçoamento do equipamento (corda, cinturão, mosquetões, ganchos etc.), a possibilidade de repetir as vias diversas vezes e o compartilhamento de informações permitiram um treinamento físico e técnico mais intensivo, com menos perigos e maior segurança. A FSGT se apoiou nessas bases e pregou o desenvolvimento da escalada, mas agora como uma prática autônoma, distinta do alpinismo. Ela opôs assim o campeão, protegido na falésia por um equipamento “poderoso”, ao herói que desafia a morte a cada instante. A federação estava convencida: a democratização dos esportes verticais passa pela “esportização” da escalada e pela redução dos acidentes. Desde 1955, ela monta um “tour de escalada” na Festa do L’Humanité.6 Em 1980, organizou as “24 horas de Bleau”, primeira competição do gênero em Fontainebleau. A contestação se preparava também longe dos Alpes, nos países anglo-saxões onde, por falta de relevos suficientes, praticava-se o rock climbing (escalada na rocha) como atividade em si. Os intercâmbios internacionais tiveram participação na difusão dessa corrente de “escalada pura” para a França, onde os “homens de mãos nuas”, como Patrick Edlinger (morto em novembro de 2012) e Patrick Bérhault (morto em 2004), optaram por um modo de vida “californiano”. Eles escalavam o tempo todo, abrigando-se nos desfiladeiros do Verdon em seus trailers, trabalhando as vias por dias inteiros, combinando alongamento e musculação.7 Para eles, a escalada pura foi vivida plenamente como um esporte autônomo. O filme de Edlinger, La vie au bout des doigts [A vida na ponta dos dedos],8 deu a volta ao mundo. Essa abordagem foi logo depois reforçada por um fenômeno antigo: com o esgotamento dos cumes virgens a serem conquistados, o alpinismo tinha de se transformar. Deixando para trás a busca aristocrática dos “pioneiros”, passou-se a procurar as “aberturas” de novas vias, mais difíceis, onde se privilegia a beleza do gesto técnico. Para François Mitterrand, eleito em 1981, a redução do tempo de trabalho (semana de 39 horas, quinta semana de férias remuneradas) não deveria apenas oferecer um progresso social, mas também dinamizar o crescimento econômico. Nessa perspectiva, o escritor Yves Ballu, conselheiro “de montanha” junto ao Ministério da Juventude e dos Esportes, apresentou dezoito propostas, entre as quais três principais: uma reforma das profissões da montanha, colocando a tônica na pedagogia e na animação, de maneira a melhor satisfazer as necessidades das associações que organizavam estágios coletivos; um plano de apoio que permitia acelerar a construção de muros de escalada em meios urbanos e escolares; e, por fim, a habilitação da Federação Francesa da Montanha para organizar competições – uma pequena revolução num meio hostil a tudo o que pudesse levar as atividades verticais a se parecerem com as outras. Em 1987, ela se tornou a Federação Francesa da Montanha e da Escalada (FFME), após ter sido unificada com a Federação Francesa da Escalada, nascida dois anos antes para organizar competições. Depois do “nacional-alpinismo” e seus valores de direita, tratava-se simplesmente de promover uma forma de “social-escalada”. Um decreto de 5 de outubro de 1984 criou o brevê de Estado em escalada, dando o direito de exercer, em troca de uma remuneração, as atividades de ensino, animação e treinamento de escalada em bloco (como na floresta de Fontainebleau), estrutura artificial e falésia. Esse novo título teve a oposição obstinada do Sindicato dos Guias de Alta Montanha, pouco acostumado a ver suas prerrogativas serem questionadas. “O cheiro asfixiante das subvenções” A FSGT preconizou a construção das paredes ou estruturas artificiais de escalada (EAE) em meios escolares e populares. Dois militantes, Gilles Rotillon e Jean-Marc Blanche, conceberam os primeiros blocos artificiais de treinamento, enquanto estudantes de colegial e seus professores realizaram o primeiro muro artificial em Corbeil-Essonne, em 1982. “O assassinato do pai [o alpinismo] assim consumado, agora só falta cimentar”,9proclamavam aqueles que não imaginavam escalar sem o vento roçando as geleiras ao amanhecer ou distantes do grão avermelhado da bela rocha e abominavam “o cheiro asfixiante das subvenções”10 exalado pelo Ministério dos Esportes, que podiam atingir um terço dos custos dos projetos. Isso não impediu que as paredes de escalada crescessem como cogumelos em ginásios, escolas primárias, colégios, centros de lazer, parques urbanos, revistas especializadas, clubes, academias... Cinco anos depois da iniciativa dos professores do Liceu de Corbeil, contava-se uma centena de paredes de escalada no território francês. A organização de competições se tornou o assunto mais espinhoso dos anos 1980. Para a FSGT, tratava-se de “matar o mito do super-homem alpinista que impedia muitos jovens de se interessarem por esse esporte”.11 Segundo a Federação dos Trabalhadores Esportistas, as competições fariam a escalada ser conhecida, desmistificariam a queda e atrairiam assim uma juventude numerosa para as EAE, depois para as paredes naturais. Durante os anos 1970 e 1980, a URSS já se distinguia claramente da abordagem ocidental ao organizar regularmente competições de escalada, e até de alpinismo, nas paredes virgens e selvagens do Cáucaso e do Pamir. No entanto, a maioria dos escaladores franceses, da base à elite, se opôs ao projeto, enojada pela ideia de um desvio em direção ao esporte-espetáculo, e rejeitou qualquer classificação oficial. Muitos dos melhores escaladores se associaram para publicar o “Manifesto dos 19” (1985). Eles defendiam que sua prática permanecesse um “refúgio diante de alguns arquétipos de nossa sociedade, em oposição a todos os esportes julgados, arbitrados, cronometrados, oficializados e muito maliciosamente estatizados”. Um ano antes da primeira competição francesa na falésia, o Club Alpin Français se manifestou: “Contra a opinião da grande maioria dos praticantes, contra a opinião das associações, diante do oportunismo dos dirigentes franceses dos esportes de montanha, sob a pressão dos interesses particulares e comerciais, as competições de escalada serão organizadas na França, com mídia e publicidade, alto-falantes e sonorização, cerveja e salsichas quentes e também, claro, público maravilhado e entradas pagas”.12 Hoje, contam-se mais de 2 mil paredes de escalada. Contrariamente ao alpinismo, a escalada causa pouquíssimos acidentes e se pratica em todas as regiões, incluindo a planície. Ela é ensinada nos colégios e pode ser escolhida como opção no baccalauréat(equivalente ao Enem [N.T.]). O clube alpino desenvolve suas próprias equipes de competidores e disputa com a FFME a organização das competições de escalada e de ski-alpino, outro esporte tocado por rankings e copas. Muitos criticam agora a FFME por abandonar a promoção da montanha, tornando-se uma federação francesa de... “paredes de escalada”.
Jean-Paul Walch
Autor de Guide technique et historique de l’alpinisme [Guia técnico e histórico do alpinismo], Guérin, Chamonix, 2012.1 The Economist, Londres, 16 fev. 2013. 2 René Desmaison, 342 heures dans les Grandes Jorasses [342 horas nos Grandes Jorasses], Hoëbeke, Paris, 2010 (1. ed. Flammarion, 1973). 3 Pierre Lambert, “La montagne ne tue pas” [A montanha não mata], Tourisme et Travail, n.7, out. 1948. 4 Pierre Allain,Alpinisme et compétition[Alpinismo e competição], Arthaud, Grenoble, 1949. 5 Montagnes Magazine, Grenoble, 1983. 6 Sport et plein air, Pantin, jul./ago. 2011. 7 Patrick Edlinger e Jean-Michel Asselin, Patrick Edlinger, Guérin, Chamonix, 2013. Michel Bricola e Dominique Potard, Patrick Bérhault, Guérin, Chamonix, 2008. 8 Documentário de Jean-Paul Janssen, difundido na rádio Antenne 2 em 1982 e indicado ao prêmio César. 9 Alpinisme et Randonnée, Paris, 1982. 10 Ibidem. 11 Montagnes Magazine, 1983. 12 La Montagne et Alpinisme, 1985. |
São Paulo - Aos 43 anos, o paranaense Luigi Cani é um dos paraquedistas mais renomados do Brasil, com pouco mais de 11 000 saltos no currículo. Cani já pulou de 4 000 metros de altura com um paraquedas do tamanho de uma toalha de mesa. Foi uma manobra perigosa: um paraquedas normal tem 7 metros de comprimento.
Em outra ocasião, conseguiu manter um voo em queda livre a poucos metros de um jato militar russo. Quem se aproveitou do barulho e da exposição dessas façanhas foi a TNT, marca brasileira de bebida energética que pertence ao grupo Petrópolis e patrocina o atleta desde 2010.
Em 2015, Cani — e a TNT — prepara para estar de novo sob holofotes. Ele deverá ser o primeiro civil a tripular um foguete particular que sairá da atmosfera da Terra. Qualquer semelhança com o feito realizado pelo concorrente Red Bull em 2012 não é mera coincidência.
Na época, a bordo de uma cápsula, o badalado paraquedista austríaco Felix Baumgartner, com o patrocínio da austríaca Red Bull, foi até a estratosfera. A diferença é que, de uma altura de 37 000 metros, ele saltou em queda livre.
Ao fazer isso, Baumgartner rompeu a barreira do som e atingiu 1 200 quilômetros por hora antes de pousar, são e salvo, 24 minutos depois. Além do patrocínio que a TNT já paga ao paraquedista brasileiro, estima-se que a viagem de foguete custará 2,5 milhões de reais.
A disputa entre as duas celebridades do mundo dos esportes radicais é apenas um sinal de quanto a concorrência entre as marcas de energéticos tornou-se aguerrida no Brasil. A Red Bull, que trouxe a categoria para o país em 1999, é líder com 43% de participação — 35 pontos percentuais à frente da Burn, da Coca-Cola. Mas, abaixo dela, novas rivais se digladiam para ganhar espaço.
De acordo com a consultoria Nielsen, o consumo de energéticos é hoje o que mais cresce entre bebidas não alcoólicas no país. Em 2013, as vendas do produto somaram 1,4 bilhão de reais, 12% mais em relação ao ano anterior. A tendência é que o crescimento se mantenha nos próximos anos.
Enquanto o consumo per capita de energéticos nos Estados Unidos é de quase 5 litros, os brasileiros bebem em média meio litro por ano. “Ainda há muito espaço para crescimento”, diz Adalberto Viviani, consultor do mercado de bebidas.
A Red Bull tem a seu favor o pioneirismo. A bebida foi criada em 1987 pelo austríaco Dietrich Mateschitz, hoje com 69 anos. Depois de provar uma bebida estimulante à base de cafeína e açúcar na Tailândia, decidiu fabricar uma versão em seu país de origem — e assim iniciou a febre mundial.
A empresa ganha espaço ao se concentrar quase exclusivamente na promoção da marca. A distribuição, por exemplo, fica a cargo de parceiros locais. No Brasil são 85 distribuidores, como a fabricante de cigarros Souza Cruz, e as empresas de distribuição EBD e Sardagna, em 27 estados.
A marca que avança com mais velocidade é a que copiou de maneira mais fiel a tática da líder: a terceira colocada TNT. Lançada em 2009 pelo grupo Petrópolis, do empresário Walter Faria, a empresa saiu do zero para conquistar 5 pontos percentuais desse mercado em cinco anos.
Imitação
Há, claro, uma enorme diferença na proporção da imitação. Se a empresa austríaca patrocina mais de 1 000 atletas pelo mundo, a brasileira montou um time formado por dez — mantidos por cerca de 30 milhões de reais por ano. Até agora seu passo mais ousado foi sua incursão na Fórmula 1.
Em 2012, a TNT se tornou o energético oficial da escuderia italiana Ferrari. Nessa seara, também seguiu os passos da principal rival. Os austríacos da Red Bull gastam 300 milhões de dólares por ano para manter uma equipe própria, vencedora das quatro últimas edições do evento.
A TNT dispõe de 5 milhões de dólares anuais para estampar a marca no carro da Ferrari. “O objetivo era fortalecer a marca de modo a ganhar mercado sem ter de baixar demais nossos preços”, diz Eliana Cassandre, gerente de marketing do grupo Petrópolis.
Brigar por preço é uma estratégia a que competidores como a segunda colocada Burn, da Coca-Cola, decidiram aderir. Criada em 2000 na Europa e hoje presente em 80 países, a Burn foi lançada por aqui em 2001. Mas nos últimos quatro anos a marca caiu de 18% para 8% do mercado.
Em 2012, sua reação foi lançar embalagens maiores, de 1 litro, em garrafas PET. Por enquanto, a Burn é a única entre as cinco maiores marcas a manter uma versão nessa linha. Todas as demais investem apenas na venda em latas. “Ao vender a Burn em garrafas, queremos atrair novos consumidores”, diz Renato Fukuhara, diretor de marketing da Coca-Cola.
Os energéticos ainda representam um produto caro para a média dos brasileiros. A nova embalagem diminui seu preço em um terço. Enquanto uma lata é vendida por 8 reais, o litro em garrafa pode ser comprado por 12.
Os consumidores da nova embalagem são jovens de 18 a 30 anos que compram a bebida em geral para misturar com vodca e beber com os amigos antes de sair à noite. Para concorrer nesse segmento, a Petrópolis lançou uma segunda marca, a Magneto, no fim de 2013.
Trata-se de uma saída para enfrentar uma avalanche de pequenas rivais, boa parte embalada em garrafas PET, que surgiram no mercado recentemente. Hoje há mais de 60 marcas — um terço delas lançado nos últimos quatro anos. O fenômeno lembra a proliferação de tubaínas no setor de refrigerantes nos anos 90, quando mais de 700 marcas regionais surgiram pelo país.
É uma briga na qual a novata Ambev preferiu não entrar. Com o energético Fusion, criado em 2011, seu principal foco é a venda de latas em casas noturnas. Para isso, a empresa triplicou o investimento em promoção de festas. Neste ano, passou a trazer para o país DJs de renome internacional em festas fechadas em que se paga até 250 reais para entrar.
“Queremos nos manter no segmento premium”, diz Felipe Ghiotto, diretor de inovações da Ambev, que também trouxe a marca americana de energético Monster para o país em 2012.
Para ampliar a base de consumidores, hoje concentrada em jovens interessados em esportes ou em baladas, está claro que a saída é diversificar o apelo. Até mesmo a líder Red Bull começou a associar sua marca a outras atividades que não apenas a esportiva. Em 2013, a empresa inaugurou seu primeiro centro cultural no país, o Red Bull Station, na cidade de São Paulo.
Na Europa, já possui cinco deles. Para recuperar o espaço perdido, neste ano a Coca-Cola decidiu reposicionar a imagem do energético Burn. Agora pretende vender a ideia de que ele pode ser consumido o dia todo, não só em festas. Uma campanha que vai ao ar em maio reforçará a mensagem.
Além disso, novas concorrentes devem começar a fazer barulho. A Brasil Kirin, dona da marca Schincariol, comprou em outubro os direitos de distribuir nacionalmente a catarinense Ecco!, cujo apelo também é o consumo frequente e diurno. A briga, daqui para a frente, só vai ficar mais acirrada.

