Blog da disciplina de Marketing Esportivo. Aqui você encontrará o conteúdo necessário para a realização do curso. Em caso de dúvidas, entrar em contato com: lleo@puc-rio.br
A coluna Pobre Futebol Rico, publicada no último domingo, na Folha de S. Paulo, explicitava o aumento próximo a 60% do dinheiro pago pelo contrato da Rede Globo com os clubes da Série A a partir de 1 de janeiro de 2016. Mas ficou devendo a lista completa de quanto cada um ganha e quanto ganhará. Até quatro anos atrás, a tabela oferecia R$ 25 milhões para Corinthians, Flamengo, Vasco, São Paulo e Palmeiras, R$ 18 milhões para o Santos, R$ 16 milhões para Fluminense, Botafogo, Atlético MIneiro, Cruzeiro, Grêmio e Internacional. Veja abaixo quanto cada um recebe hoje e quanto receberá a partir de 2016. A tabela não inclui o pay-per-view. Quanto mais torcedores inscritos no canal Premiere um clube tem, maior a porcentagem do que recebe à parte pelo sistema pague-para-ver.
1. Flamengo e Corinthians - De R$ 110 milhões/ano para R$ 170 milhões/ano
2. São Paulo - De R$ 80 milhões/ano para R$ 110 milhões/ano
3. Vasco e Palmeiras - De R$ 70 milhões/ano para R$ 100 milhões/ano
4. Santos - De R$ 60 milhões/ano para R$ 80 milhões/ano
5. Atlético-MG, Cruzeiro, Grêmio, Internacional, Fluminense e Botafogo - De R$ 45 milhões/ano para R$ 60 milhões/ano.
6. Outros integrantes da Série A - De R$ 27 milhões para R$ 35 milhões/ano
Faixa cobriu a palavra Allianz, nome da empresa que dá nome ao estádio do Palmeiras
A CBF diz que a confusão no Allianz Parque, neste sábado, no primeiro jogo do Campeonato Brasileiro, foi de responsabilidade de uma terceirizada por ela contratada para cuidar da operação dos jogos. De acordo com a diretoria, a dona dos naming rightsdo estádio do Palmeiras está autorizada a manter o nome nos mesmos lugares, como está atualmente.
A entidade se manifestou ainda neste domingo sobre o assunto para explicar o ocorrido (veja no fim do texto). O imbróglio acabou ofuscando a cerimônia de abertura preparada para o duelo.
Antes do início do jogo, faixas brancas foram colocadas em cima do nome da patrocinadora do alviverde, em alguns lugares da arena. Momentos depois, no entanto, elas foram retiradas, deixando a marca visível novamente. Uma funcionária tentava explicar aos torcedores que era uma reivindicação da Globo e que o time poderia até perder pontos caso a deliberação não fosse cumprida.
A diretoria da entidade máxima do futebol brasileiro ainda não identificou quem foi que fez a recomendação para tampar o "Allianz".
A CBF vai criar um regulamento geral de Marketing para divulgar as regras e fazer com que elas sejam implementadas. A iniciativa, no entanto, não tem a ver com o ocorrido nesta primeira rodada.
Há duas semanas, houve uma reunião de organização do Brasileiro, com dirigentes de vários times, na qual a confederação falou sobre o tema e anunciou a elaboração do documento.
Além de resolver problemas como esse do estádio do Palmeiras, neste domingo, a ideia da diretoria é de explicar aos clubes o que eles podem ou não comercializar. Um exemplo, usado no dia do encontro, foi em relação ao uniforme do gandula. Quem, afinal, pode vender a propriedade, se quiser? Essas e outras questões serão colocadas no regulamento.
Leia o comunicado da CBF:
A Confederação Brasileira de Futebol esclarece que o episódio ocorrido no sábado, na partida entre Palmeiras e Atlético Mineiro, em que o nome Allianz Parque chegou a ser coberto, ocorreu em virtude do excesso de zelo da empresa terceirizada encarregada dos procedimentos operacionais nos estádios.
Vale ressaltar que o problema foi detectado e devidamente corrigido pela diretoria de Marketing da CBF e não se repetirá nos jogos do Campeonato Brasileiro.
http://esportes.estadao.com.br/noticias/futebol,fifa-fatura-r-16-bilhoes-com-a-disputa-da-copa-do-mundo-no-brasil,1653669http://esportes.estadao.com.br/noticias/futebol,fifa-fatura-r-16-bilhoes-com-a-disputa-da-copa-do-mundo-no-brasil,1653669http://esportes.estadao.com.br/noticias/futebol,fifa-fatura-r-16-bilhoes-com-a-disputa-da-copa-do-mundo-no-brasil,1653669http://esportes.estadao.com.br/noticias/futebol,fifa-fatura-r-16-bilhoes-com-a-disputa-da-copa-do-mundo-no-brasil,1653669O material jornalístico produzido pelo Estadão é protegido por lei. Para compartilhar este conteúdo, utilize o link:http://esportes.estadao.com.br/noticias/futebol,fifa-fatura-r-16-bilhoes-com-a-disputa-da-copa-do-mundo-no-brasil,1653669O material jornalístico produzido pelo Estadão é protegido por lei. Para compartilhar este conteúdo, utilize o link:
JAMIL CHADE O ESTADO DE S. PAULO Entidade lucra enquanto País fica com ônus de estádios deficitários Na Fifa, lucros recordes. No Brasil, estádios deficitários, fechados e até afetados pela Operação Lava Jato. A Copa do Mundo de 2014
garantiu para a Fifa o maior resultado financeiro de sua história e milhões acima até mesmo do que a entidade previa.
O Estado obteve com exclusividade o balanço comercial mantido em sigilo pela entidade que será revelado amanhã e aponta que o
Mundial rendeu à Fifa perto de US$ 5 bilhões (R$ 16 bilhões). Diante do recorde, jamais a entidade acumulou uma fortuna como a que
hoje dispõe.
Entre 2010 e 2014, enquanto o mundo pena para sair de sua pior crise financeira em 70 anos, a Fifa segue um caminho radicalmente
diferente graças aos contratos no Brasil. Apenas no ano de 2014, a renda foi de quase US$ 2 bilhões, um recorde absoluto com contratos
comerciais, vendas de ingressos e direitos de televisão.
Nenhum outro evento jamais se comparou aos ingressos gerados pelo Brasil, e sem a cobrança de impostos. Para a Copa de 2010, na
África do Sul, a renda chegou a US$ 4,1 bilhões. No ano de renda máxima na história da entidade, em 2006, os ingressos chegaram a
US$ 249 milhões. Agora, os valores apontam para um salto de dez vezes.
A entidade argumenta que deixou parte dessa renda ao Brasil, com um pacote de US$ 100 milhões para o desenvolvimento do futebol no
País. O que a Fifa não diz é que o volume é equivalente ao que paga, por ano, em salários a seus próprios cartolas. BURACO Se a Fifa nada em dinheiro hoje, a situação dos estádios brasileiros nem sempre acompanha esses benefícios. Pelo menos seis dos 12
estádios da Copa estão com sérias dificuldades para se financiar. Na Fonte Nova, em Salvador, o problema é o impacto dos escândalos de corrupção no Brasil e a Operação Lava Jato. A OAS, empresa
que administra o estádio, teve suas ações bloqueadas pela Justiça e pode ser obrigada a se desfazer do investimento na arena. Em Manaus, os times amazonenses têm evitado usar o estádio diante dos custos para os jogos do estadual. A Arena Amazônia, que
custou R$ 670 milhões, precisa de R$ 700 mil por mês em manutenção. Mas, entre o final da Copa e fevereiro deste ano, o estádio
recebeu apenas sete partidas e o prejuízo supera a marca de R$ 2 milhões. Em média, o campeonato amazonense de futebol de 2015 tem
recebido um público pagante de 659 pessoas por jogo. Em Brasília, a falta de jogos no estádio Mané Garrincha levou o governo do DF a levar parte de sua burocracia para ocupar o local. Hoje,
seu buraco é de mais de R$ 5 milhões.
Em Natal, o ABC rompeu nesta semana um acordo com o consórcio que administra a Arenas das Dunas. Um contrato previa que os
clássicos do estado fossem realizados no estádio. Mas, no início do mês, a partida entre ABC e América foi disputado no Frasqueirão.
O América manteve seus jogos na Arena. Mas, em sete partidas, acumulou uma média de meros 3,5 mil pagantes por jogo – 10% da
capacidade do estádio. O Maracanã ainda luta para operar com lucros. Para que uma partida represente um benefício para os administradores, o estádio
precisa contar com pelo menos 30 mil torcedores. No atual campeonato estadual, a média de público não passa de 3,6 mil por jogo. No
caso do Flamengo, a média é de 16 mil. Em janeiro, a Arena Pantanal foi obrigada a fechar suas portas para uma reforma “urgente”. Isso tudo apenas sete meses depois da
Copa. NÚMEROS US$ 5 bilhões a Fifa faturou com a Copa do Mundo no Brasil, um recorde histórico US$ 4,1 bilhões rendeu a Copa de 2010 na África do Sul aos cofres da entidade US$ 249 milhões ingressaram na Fifa com a organização da Copa de 2006 na Alemanha http://esportes.estadao.com.br/noticias/futebol,fifa-fatura-r-16-bilhoes-com-a-disputa-da-copa-do-mundo-no-brasil,1653669
O sucesso do Allianz Parque tem gerado ciúmes na coirmã Allianz Arena, da Alemanha. Com números altos de público e renda, além dos eventos importantes ali marcados, o estádio brasileiro tem roubado a cena e vem chamando mais a atenção da seguradora, dona dos direitos de nome de ambos os lugares. O show do Paul McCartney foi o mais impactante até agora.
Até o meio do ano passado, as relações entre os envolvidos com as operações palmeirenses eram ótimas com os alemães. Depois, a partir dos últimos meses de 2014, a situação já era diferente, com muito menos contato e poucas conversas.
Segundo informações obtidas quando o ex-Beatle fechou o contrato para passar com sua turnê em São Paulo, os executivos do país campeão da Copa do Mundo chegaram a não acreditar.
Em pouco tempo, a arena palmeirense virou o centro, quase um xodó, enquanto antes só se falava da casa do Bayern de Munique.
Os números de público e renda também foram impactantes. A receita do primeiro jogo, contra o Sport, de R$ 4,9 milhões, uma das dez maiores da história do futebol brasileiro, e a maior no futebol paulista, também foi destacada algumas vezes.
Em outubro do ano passado, em Nice, em uma convenção com todos os estádios da Allianz (do Brasil, da Austrália, da Inglaterra, da Alemanha e da França), uma outra situação causou claro desconforto.
O assunto era a necessidade da colocação de internet aberta ao público em todas as praças da seguradora. Os representantes do palco palmeirense pediram a palavra: "o nosso já está funcionando" - ainda que, é bom lembrar, nem sempre funcione, dependendo do número de pessoas lá dentro.
No início deste ano, com quase 34 mil votos, o palmeirense foi eleito o estádio do ano, em uma votação aberta realizada pela Stadium DB, site especializado no assunto, superando as arenas que estiveram na Copa do Mundo em 20114.
O vice-campeão foi o San Mamés, que fica na Espanha, com mais de 27 mil votos. A Arena Corinthians, a Arena da Baixada e a Arena das Dunas também concorreram.
Na votação organizada entre os especialistas do site, o vencedor foi Hazza Bin Zayed Stadium, que fica nos Emirados Árabes Unidos. O vice-campeão dessa parte é brasileiro: a Arena da Amazônia.
Depois de Paul, nenhum outro show aconteceu até agora na casa palestrina. Há sete datas reservadas para o segundo semestre de 2015. Em abril, Roberto Carlos vai fazer com sua turnê por lá, a primeira passagem de um cantor nacional.
Esqueça o universo paralelo de Neymares e Ronaldinhos. A maioria dos jogadores brasileiros ganha mal — quando recebe —, enfrenta condições precárias de trabalho e é refém de uma atividade que explora a troco de ilusões
Por: Breiller Pires, da PLACAR
Os escravos da bola | Crédito: Renato Pizzutto
Aos 43 do segundo tempo, o baiano Kemerson, 21, realiza um sonho no agreste sergipano. Ele substitui o meia Fernando, dá três toques na bola e não evita a derrota do seu time para o Santa Cruz. Mas aqueles 5 minutos bastam para enchê-lo de orgulho. O zagueiro pode dizer aos parentes de Feira de Santana que já disputou a segunda competição mais importante do país, a Copa do Brasil. O entusiasmo, entretanto, logo se transforma em frustração. Sem dinheiro e sem comida, não havia mais como permanecer no casebre que abrigava quatro jogadores por cômodo. Dois meses depois de sua façanha pessoal, Kemerson deixou o Lagarto.
Nem o motim liderado pelos colegas que se recusavam a treinar enquanto não recebessem os dois meses de salários atrasados evitou o desfecho de sua aventura em Sergipe. Hoje ele desbrava o interior de Goiás e se prepara para a segunda divisão do campeonato estadual com o América de Morrinhos. Ainda não recebeu os cerca de 2,000 reais que o Lagarto lhe deve. “Quando me ligaram, prometeram mundos e fundos. No fim, quase passei fome”, conta o defensor. A história de Kemerson se cruza com a de grande parte dos mais de 20.000 jogadores profissionais do Brasil. Eles raramente aparecem na TV, não trabalham com carteira assinada nem ostentam contas bancárias de sete dígitos. São os operários explorados pelo futebol.
O zagueiro baiano nunca teve carteira assinada e tenta a sorte no América-GO | Crédito: Carlos Costa
FOME, FADIGA E AGONIA
Propriá está a 160 quilômetros de Lagarto. É lá que fica a sede de outro América, bicampeão sergipano. Em 2013, um ano antes do martírio de Kemerson, o atacante Murilo, 22, desmaiou de fome assim que o time saiu de campo derrotado pelo Confiança. Na noite da partida, o clube, que devia um mês de salário ao elenco, não teve verba sequer para bancar o jantar da delegação. Profissionais de imprensa que cobriam o jogo ofereceram biscoitos recheados aos jogadores do América. “A alimentação não era adequada. Corri muito em campo e chegou uma hora em que eu não sentia mais o corpo”, diz Murilo, que atualmente trabalha carregando sacos em Ourinhos, interior de São Paulo, enquanto aguarda uma nova oportunidade. Ele saiu do América após travar o pé no torrão de areia do gramado esburacado em um treino e ouvir o estalo da perna esquerda quebrando.
Murilo passou mal depois de jogo pelo América-SE | Crédito: Revista Placar
Jogadores de outros estados chegaram ao América por um salário mínimo, mas, com a queda para a segunda divisão, receberam apenas parte do combinado. Thiago Bento, 24, ex-companheiro de Murilo, desabou de Arapiraca, Alagoas, com a esperança de deslanchar. Acabou sofrendo a segunda desilusão da carreira. Em 2011, havia arcado com a passagem para percorrer mais de 2.300 quilômetros rumo ao Cotia, da quarta divisão paulista. Dois meses venceram, nenhum centavo pingou em sua conta, e ele decidiu ir embora levando na bagagem um cheque (sem fundos) de 1.600 reais. “Jogador sofre demais”, afirma. Desempregado no futebol, o zagueiro faz bicos como servente de pedreiro.
Thiago Bento está sem clube | Crédito: Cláudio Lima
Maycon Gaudencio, 24, jogou no América de Propriá em 2012, quando o time subiu para a primeira divisão. Abandonou o emprego em um mercado da cidade para assinar seu primeiro contrato. Em vez de ganhar um salário mínimo por mês, embolsou apenas 300 reais ao fim do campeonato. “Passo difculdade, não tenho casa, minha mulher está grávida. Esse dinheiro me faz falta”, diz o lateral. Situação que o experiente goleiro Carlos Henrique, 34, aprendeu a administrar ao longo da carreira. Ele jogou em praticamente todos os times profissionais do Piauí, até mesmo nos tradicionais River e Flamengo. Levou calotes na maioria deles. “É perda de tempo cobrar na Justiça. Os clubes não têm como pagar.”
Com duas décadas de rodagem, Carlos Henrique achou que já tinha visto de tudo até jogar o Piauiense de 2014 pelo Caiçara. “Nunca recebi um tostão lá.” No alojamento, cama era artigo de luxo. Jogadores dormiam em redes ou colchonetes esparramados pelo chão. Tomar banho, só de cuia. Não havia chuveiros nem material de treino apropriado. “Um negócio desumano”, afirma Vasconcelo Pinheiro, presidente do Sindicato dos Atletas do Piauí, que apresentou denúncia à Procuradoria Regional do Trabalho. Os atletas, porém, se recusaram a assinar o requerimento, e a investigação não foi adiante. “Eles têm medo de retaliações e de ficarem queimados no meio.” Apesar de ter terminado em último lugar, o clube segue na primeira divisão piauiense este ano.
Na concentração do Caiçara, de Campo Maior, atletas dormiam em redes e colchonetes | Crédito: Revista Placar
Em times como Lagarto, América e Caiçara, dirigentes costumam intimidar atletas para abafar atrasos de salários. Alguns jogadores relatam já ter ouvido ameaças como “Vou acabar com sua carreira” e “Não joga mais em lugar nenhum” ao reivindicarem seus direitos. A coação é tão banalizada quanto as fraudes trabalhistas. No início do ano, o Sindicato do Piauí enviou um ofício à Superintendência do Trabalho e Emprego propondo fiscalizações em oito clubes do estado, incluindo os seis da divisão principal. Além de dívidas e condições laborais degradantes, nenhum deles faz anotação em carteira. Geralmente com baixa escolaridade, poucas alternativas no mercado e movidos pelo sonho de ascender ao restritíssimo escalão que amealha cifras milionárias com as chuteiras, jogadores são reféns de uma profissão que reprime e explora.
“Minha vida sempre foi na estrada, viajando atrás da bola. Não tive tempo de estudar”, diz Kemerson, que largou a escola assim que concluiu a 8ª série. “Apesar das difculdades, não vou desistir do futebol.” O estigma por não vingar na carreira também contorna o cenário de indigência do ofício. O advogado João Henrique Chiminazzo, especialista em direito esportivo, explica o círculo vicioso que pode recair sobre jogadores presos a clubes mal-estruturados e devedores. “O atleta que sai de um time sem receber acaba aceitando contratos ainda mais absurdos para tentar sobreviver. E nada garante que eles serão cumpridos.” De acordo com Alex Garbellini, procurador do Ministério Público do Trabalho (MPT), o número de violações trabalhistas em clubes de futebol tem aumentado. Casos extremos tornam latente o sucateamento da profissão. “Jogadores sem salário, sem comer direito, à beira do amadorismo, são o exemplo clássico da escravidão contemporânea.”
O pé de obra nacional | Crédito: Revista Placar
A BASE DA PIRÂMIDE
Clubes grandes também agonizam. Recentemente, os elencos de Botafogo e Santos ameaçaram fazer greve por causa de seguidos atrasos de pagamento. Na Portuguesa, atletas como Valdomiro, 36, contabilizam sete meses de salário a receber. “Futebol é uma ilusão. Na verdade, é uma máquina de explorar jogadores”, diz o zagueiro, que só tem conseguido pagar as contas e até emprestar dinheiro a colegas mais jovens graças às economias que juntou em seus seis anos no exterior.
Assim como ele, pelo menos outros nove do elenco se queixam da falta de pagamentos prolongada. A diretoria lusitana, que reconhece as dívidas, quitou os salários de janeiro, já que o regulamento do Campeonato Paulista prevê, em todas as divisões, a perda de pontos de equipes que não pagam em dia. A regra, no entanto, tem se mostrado inefcaz. Além da Portuguesa, Grêmio Barueri, São José e Marília, que acumula três meses de salários atrasados, estão inadimplentes em 2015. Denúncias dependem de representação formal dos atletas no sindicato e, até agora, nenhum clube foi punido.
Valdomiro teve salários atrasados na Lusa | Crédito: Renato Pizzutto
Somente no Ministério Público do Trabalho de Campinas correm 23 processos contra times da região, 18 a mais em relação há quatro anos. Em todo o Brasil, o MPT registra 917 procedimentos envolvendo fraudes trabalhistas e violações de direitos dos jogadores desde 2002. Alguns estados, como Piauí, Sergipe, Acre, Mato Grosso do Sul e Espírito Santo, vivem situação crônica de atrasos salariais, onde praticamente todos os clubes operam no vermelho. Também há casos de camisas tradicionais atoladas na crise, a exemplo de Guarani, Paraná Clube e Vila Nova. O goleiro Marcelo Pitol, 32, cobra na Justiça cinco meses de salário referentes a sua passagem pelo time goiano em 2013. Não é a primeira vez que ele protagoniza um litígio trabalhista. Levou cinco anos para receber uma dívida do Náutico e outros cinco para entrar em acordo com a falida Ulbra, de Canoas (RS).
“Jogar e não receber afeta o rendimento”, diz o goleiro, que carrega os escudos de 19 clubes no currículo e hoje defende o Aimoré-RS. “É duro ir treinar e ver jogadores pedindo dinheiro emprestado. Se for mal em campo, aí que o dirigente não paga mesmo.” A demora para receber na Justiça é cruel com jogadores da parte mais baixa — e extensa — da pirâmide. Dependendo do clube, eles são obrigados a pagar do próprio bolso custos de até 2.000 reais para se inscreverem nas federações. Rescisão de contrato sem justa causa, então, é infortúnio ainda maior. Demissão no futebol raramente assegura benefícios típicos de todo trabalhador. É praxe na maioria dos clubes devedores não recolher o fundo de garantia e o INSS, apesar de a contribuição muitas vezes ser descontada no salário dos jogadores. Com isso, sobretudo se não tiverem anotação do vínculo na carteira de trabalho, eles enfrentam dificuldade para usufruir do seguro-desemprego. Advogados podem arrolar o benefício em eventuais ações judiciais, mas, como o processo contra clubes costuma ser longo, o atleta precisa se virar até fechar um novo contrato.
Pitol também sofreu com salários atrasados | Crédito: Edison Vara
SEM UNIDADE
O Rio Grande do Sul é o único estado que estabeleceu um piso salarial para a classe: 1.000 reais. Não raro, sobretudo nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, jogadores treinam e jogam o mês inteiro para receber menos que um salário mínimo (788 reais). “Estamos preparando uma convenção nacional em abril para instituir o piso e outras medidas importantes em todos os estados”, diz o presidente nacional do Sindicato dos Atletas, Rinaldo Martorelli. Outro problema enfrentado pelos jogadores em clubes pequenos é a falta de um calendário anual de jogos. “Só conseguimos contrato de quatro, cinco meses para disputar Estaduais. Quem não joga em clube grande corre o risco de ficar o resto do ano parado”, afirma Pitol. O caminho para socorrer os nanicos é árduo. O Bom Senso F.C., movimento encabeçado por atletas experientes, exige campeonatos mais abrangentes da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
Rompido com o sindicato, o grupo diverge da entidade em questões-chave como a proposta de aposentadoria para os jogadores e a Lei de Responsabilidade Fiscal, que prevê a criação de uma agência reguladora para fiscalizar e punir clubes em inadimplência. O projeto depende de aprovação no Congresso Nacional. Enquanto isso, dirigentes de Caiçara e América de Propriá, que está inativo desde o ano retrasado, não foram encontrados para comentar os casos de exploração dos jogadores. Aloísio Andrade, presidente do Lagarto, afirma que a antiga gestão foi responsável pelos calotes e que tem tentado acertar as dívidas com atletas que deixaram o time. Kemerson segue à espera de um contato, uma chance em clube grande. Ou ao menos de ser tratado como jogador de futebol, um trabalhador, não como mercadoria.
OSSOS DO OFÍCIO
Existem alguns pontos que diherem o boleiro profissional do trabalhador comum
Jornada de trabalho
Enquanto a maioria dos trabalhadores formais tem carga horária fixa por semana, a jornada do atleta de futebol é flexível. A duração dos treinos varia de acordo com o técnico e, como os jogos acontecem à noite ou em fins de semana, não há pagamento de horas extras.
Equiparação salarial
A remuneração não é definida conforme a função. O atacante de clube pequeno recebe menos que o de clube grande, assim como no mesmo elenco podem conviver um zagueiro que ganha 100.000 reais e outro, 1.000.
Tempo de contrato
O vínculo de jogadores com os clubes tem duração pré-estabelecida. eles raramente recebem seguro-desemprego, a não ser que a equipe rompa o acordo antes do término. Nesses casos, podem perder o benefício se o empregador não tiver recolhido INSS.
Férias e descanso
Jogador não tem direito a vender parte das férias nem de fracioná-las. Previstas em contrato, elas devem coincidir com o período de encerramento da temporada. A folga remunerada semanal difcilmente é concedida no fim de semana, por causa dos jogos.
ATAQUES À PROFISSÃO
Como os clubes têm violado os direitos do jogador de futebol
Direito de imagem
Em vez de pagar o salário integral em CLT, dirigentes atrelam a remuneração aos direitos de imagem do jogador, que, em tese, deveriam ser utilizados pelo departamento de marketing. mas a artimanha serve para eximir o clube de encargos trabalhistas. Jogadores de times grandes, como Fred, do Fluminense, recebem mais direitos de imagem que o salário em carteira. O clube carioca deve 4 milhões de reais ao atacante por ter atrasado quase dois anos o pagamento da imagem.
A lei do calote
Se o clube deixa de pagar os vencimentos ou recolher o fundo de garantia (FGTS) e INSS por três meses, o atleta pode rescindir o contrato de forma unilateral. Para não perder jogadores, times maiores adotam a prática de quitar o salário da CLT, geralmente um valor simbólico, e não pagar os direitos de imagem.
Escravidão moderna
Além de não honrar o pagamento de salários, clubes endividados e sem estrutura impõem condições de trabalho análogas à de escravo e colocam em risco a integridade física dos jogadores, sendo que muitos deles acabam sofrendo assédio moral e são até extorquidos por dirigentes.
Uma pesquisa do Ibope, em julho de 2012, encomendada pela Ambev, listou as paixões do brasileiro. A primeira delas é o futebol. A segunda é a cerveja. A terceira é futebol com cerveja. Ou seja, a união das duas primeiras é algo mais que bem-vindo para as pessoas. Essa combinação pode ser desfrutada em bares, churrascos com peladas e antes das partidas nos arredores dos estádios. Poucas vezes dentro desses estádios, pois é proibido vender bebidas alcoólicas durante os jogos no Brasil. Pelo menos por enquanto.
Durante a Copa das Confederações e a Copa do Mundo, a Lei Geral da Copa criou uma exceção para que um dos patrocinadores da Fifa pudessem vender seus produtos durante as partidas. Esse texto serviu aos interesses da organização do Mundial, e ainda criou um vácuo que está sendo aproveitado pelos legisladores para liberar o consumo e a comercialização de álcool nas arenas, do Rio Grande do Sul ao Rio Grande do Norte. Principalmente porque o artigo na lei federal que regula o assunto, o Estatuto do Torcedor, é frágil. O Mundial mostrou que torcida e cerveja podem conviver relativamente bem em determinadas circunstâncias. Não houve grandes incidentes, que pese a rivalidade entre seleções ser muito menor que entre clubes.
Um dos lugares em que se pode testar a tese é em Porto Alegre. Internacional e Grêmio protagonizam uma das maiores (potencialmente a maior) rivalidade do Brasil e estão sedentos para maximizar os ganhos com seus estádios modernos. Na capital gaúcha, a Câmara de Vereadores aprovou um projeto de lei de Alceu Brasinha (PTB) que libera a venda de álcool. O texto aguarda a sanção do prefeito José Fortunati (PDT), mas o Rio Grande do Sul tem uma lei estadual proibindo esse tipo de comércio durante os jogos.
A questão, porém, não é apenas de segurança ou ideologia. Ela envolve muito dinheiro. As cervejarias estão cada vez mais presentes no esporte, com patrocínios e naming rights, e querem vender os seus produtos. A exceção criada pela Lei Geral da Copa serviu à Budweiser, uma das principais parceiras da Fifa. A Itaipava paga R$ 10 milhões por ano ao governo da Bahia para associar a sua marca ao nome da Arena Fonte Nova. Meses depois do contrato ser assinado, uma lei foi aprovada pela Assembleia Legislativa autorizando a venda de bebidas alcoólicas no estádio baiano. O autor do texto foi o ex-deputado estadual João Bonfim (PDT), atualmente no Tribunal de Contas do estado. A Trivela tentou entrar em contato com ele, mas não foi respondida até o fechamento desta reportagem.
“Eu acho que é uma pressão econômica muito grande”, afirma o professor Mauricio Murad, especialista em sociologia do esporte e coordenador de uma pesquisa na Universidade Salgados Oliveira, de Niterói (RJ), chamada Álcool e violência no futebol. Ele também é o autor do livro Para entender a violência no futebol. “As cervejarias são muito fortes, o lobby junto ao poder legislativo é muito grande”.
Os clubes brasileiros modernizaram os seus estádios e precisam de todas as rendas que conseguirem para pagar as contas. O diretor de negócios da área de entretenimento da Odebrecht Properties, parte do consórcio que administra a Fonte Nova, a Arena Pernambuco e o Maracanã, estima um prejuízo de R$ 10 por torcedor por causa da proibição. Ou seja, se o público for de 20 mil pessoas, R$ 200 mil a menos no faturamento. “As arenas administradas pela Odebrecht Properties cumprirão o que for determinado pela legislação”, respondeu a empresa à reportagem da Trivela, ao ser questionada sobre o que acha do assunto.
Há uma corrente forte na defesa de que não vender cerveja faz os estádios e os clubes perderem dinheiro, e ainda tem pouco efeito prático porque as pessoas podem beber antes de passar pelas catracas, causando tumulto nas catracas e nos arredores do estádio. Um estudo da Fundação Getúlio Vargas calcula que uma em cada quatro cervejas bebidas no país tem relação com o futebol, o que mostra que a ausência das geladas no estádio não tem impedido muitas pessoas a consumirem o produto quando vão ao jogo. Um fator importante para a economia nacional, pois essa pesquisa da FGV aponta que R$ 338 milhões são gerados no País a cada R$ 100 milhões gastos com cerveja.
O que proíbe? E será que proíbe mesmo?
A Lei Geral da Copa criou uma exceção para a venda de bebidas nos estádios (Foto: AP)
Não existe necessariamente uma relação de efeito e causa entre a presença das cervejarias e a modernização dos estádios com as tentativas de liberar a venda de álcool nos estádios. Pode ser apenas coincidência. Ou, no momento em que precisam maximizar as rendas, os gestores tenham percebido que não existe, de fato, uma lei que impeça a boa e velha cervejinha nas arquibancadas.
O que de fato interrompeu a venda de bebidas foi um Termo de Adendo ao Protocolo de Intenções, termo pomposo para um acordo entre a CBF, ainda com Ricardo Teixeira, e o Conselho Nacional dos Procuradores-Gerais da Justiça, em 2008. Nenhum deles tem poder legislativo, diferente do Estatuto do Torcedor, que versa sobre o assunto no artigo 13-A, sobre as condições para “acesso e permanência do torcedor no recinto esportivo”:
“Não portar objetos, bebidas ou substâncias proibidas ou suscetíveis de gerar ou possibilitar a prática de atos de violência”.
O Estatuto do Torcedor é ignorado com irritante frequência por aqui. Os clubes, por exemplo, querem fazer isso para que o Campeonato Brasileiro volte a ser disputado no sistema de mata-mata. Mas, acima de tudo, o artigo é muito vago e passível de interpretação. E não pode ser assim. “Qualquer norma restritiva tem que ser objetiva”, afirma o advogado Pedro Trengrouse, consultor das Nações Unidas sobre legislação esportiva, coordenador de uma pós-graduação sobre o tema na FGV e ex-representante de clubes como Fluminense, Flamengo e São Paulo. “Tem que dizer o que não pode. Não cabe interpretação. Para normas restritivas, o princípio é não interpretar. A interpretação tem que ser literal”.
É com essa brecha que a Odebrecht justifica a venda de cervejas na Fonte Nova, de acordo com a Lei Estadual do ex-deputado João Bonfim. “É importante destacar que não existe ‘lei nacional’ que regulamenta ou impeça o consumo de bebidas alcoólicas dentro dos estádios”, explica. “O Estatuto do Torcedor é a lei federal que mais se aproxima da abordagem do tema, mas o texto não regulamenta a questão, nem proíbe expressa ou diretamente a venda de bebidas alcoólicas”.
A hierarquia das leis está sendo bastante discutida em Porto Alegre porque o projeto de lei do vereador Alceu Brasinha anularia uma lei estadual que proíbe a comercialização de álcool nos estádios. Um parecer da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Municipal da capital gaúcha alega que é competência do município “exercer o papel de polícia administrativa nas matérias de interesse local”. Ou seja, nesses casos poderia ignorar leis superiores, como estaduais e federais. Eduardo Carrion, professor de direito constitucional da UFRGS, defendeu em entrevista à Zero Hora, que se trata de um caso de saúde pública e, portanto, vale a lei do mais forte.
Antes de ficar famoso por montar listas de suspeitos de corrupção, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, deu o seu pitaco sobre o assunto. Entrou com uma “ação direta de inconstitucionalidade” no Supremo Tribunal Federal contra a lei baiana porque ela “extrapola os limites da competência legislativa concorrente”. Em juridiquês, isso significa que a Assembleia Legislativa do estado não pode contradizer a legislação federal, no caso, o Estatuto do Torcedor. “Foi não só inconstitucional como extremamente infeliz e sociologicamente inadequada. A permissão contida na lei baiana expõe a riscos a segurança e a integridade dos torcedores-consumidores e dificulta fortemente a prevenção de episódios de violência em tais eventos e a repressão a eles”, justifica. Mas será que dificulta mesmo?
O que o álcool tem a ver com a violência?
O professor Murad tem em mãos relatórios médicos que comprovam: o álcool acentua a violência nas pessoas, em todos os âmbitos, do trânsito ao futebol. A conta, portanto, é simples. Quanto mais agressividade, maior a possibilidade de confrontos dentro dos estádios. Não deveria ser assim, mas os jogos são, de fato, ambientes já propensos a brigas por causa da rivalidade e da tensão.
“O controle do álcool é necessário”, afirma. “Não é milagroso, mas somando-se a outras medidas, pode contribuir para o fim da violência nos estádios. Eu costumo dizer que a violência no futebol é complexa e multi-facetada. Como não tem causa única, não tem solução única. Agora, não adianta a hipocrisia de proibir a bebida dentro dos estádios e vender na porta. Precisa haver um controle dentro e fora, em um raio grande. O padrão internacional prevê cinco quilômetros.”
Porque é exatamente o que costuma acontecer. Os torcedores fazem um “esquenta” na entrada dos estádios antes das partidas. O que é mais problemático do que parece, pois as consequências de beber fora do ambiente controlado dos estádios são piores porque são mais difíceis de serem controladas. As pessoas consomem mais porque o efeito precisa durar 90 minutos; entram todos ao mesmo tempo e de última hora, causando tumultos nas catracas; consomem longe dos estádios, onde não há aparatos de segurança para controlar potenciais brigas. Por isso, Trengrouse considera que vender cerveja seja melhor. “Fiz um estudo sobre isso, inclusive levando em consideração a experiência inglesa, a mais bem documentada sobre o assunto, e percebi que a restrição ao consumo de bebida alcoólica no estádio é prejudicial à segurança pública”, afirma.
Quando é proibido beber nos estádios, aumenta o consumo de bebidas mais fortes, como Tequila (Foto: AP)
A proposta de Murad para evitar os danos do consumo fora do estádio é polêmica: um bafômetro para impedir o acesso de pessoas alcoolizadas aos jogos de futebol. O estádio Nicolas Leoz, em Assunção, usa esse artifício, e em 2013, palmeirenses foram impedidos de assistir ao duelo do time deles contra o Libertad. “Uma medida complementa a outra: proibição dentro do estádio, controle fora do estádio e bafômetro para a entrada”, explica o pesquisador. “Acho que a experiência do bafômetro no trânsito tem sido vitoriosa nesse sentido. Aqui no Rio de Janeiro, a Lei Seca diminuiu em mais de 70% os índices de violência e acidentes no trânsito. É algo a se pensar.”
O hooliganismo inglês, citado por Trengrouse, sempre foi muito creditado ao álcool, tanto que uma lei proibiu o consumo dessa substância “no raio de visão do campo” em 1985. Ou seja, o torcedor pode beber à vontade nas lanchonetes e nos corredores, mas será punido se levar o copo ao assento. Não faz muito sentido, e o que conseguiu dar um jeito nos briguentos ingleses não foi essa determinação, mas o Relatório Taylor, publicado quatro anos depois, por causa da Tragédia de Hillsborough.
O pesquisador inglês Geoff Pearson analisou o comportamento dos torcedores britânicos para um estudo chamado “Uma etnografia dos torcedores ingleses – latinhas, policiais e carnavais” chega às mesmas conclusões de Trengrouse. Além disso, questiona porque torcidas com fama de beberem bastante, como os escoceses, os irlandeses e os dinamarqueses, não são particularmente violentas. Nessa mesma linha de raciocínio, por que não existem brigas frequentes em jogos de rúgbi e críquete, nos quais o álcool compõe a tradição do esporte?
“Tem muito tabu e nenhuma objetividade nessa questão”, continua Trengrouse. “Não há nenhuma relação entre cerveja e violência no estádio, nenhum estudo que comprove isso. No Mineirão, há um estudo que mostra que depois da restrição houve um aumento de delitos relacionados à bebida. Os grandes problemas que o futebol mundial viveu nos últimos anos não tiveram nada a ver com bebida”.
No Brasil, a maioria das mortes não teve sequer a ver com o jogo. De acordo um levantamento do jornal LANCE!, apenas nove das últimas 275 mortes ligadas ao futebol aconteceram dentro dos estádios. A última foi em 2007, no Mineirão. Para Murad, o álcool contribui para a criação de um ambiente de agressividade que acaba causando mortes e violência nos caminhos de ida e volta para o estádio. “A população pacífica fica ao sabor dessas facções minoritárias que são gangues dentro das organizadas, onde há muito consumo de drogas e de armas brancas”.
A conta, para ele, mais uma vez é simples: a liberdade individual de tomar uma cerveja durante o jogo não compensa os malefícios que o álcool pode levar ao estádio de futebol. “Quando houve a proibição de fumar dentro do avião, falavam do direito da pessoa, que não conseguiria passar tanto tempo sem fumar. Hoje as pessoas ficam, porque se constatou, por pesquisas médicas, que o malefício pode ser muito maior que aquele direito” exemplifica. “Acho uma comparação possível a se fazer. O controle, em um primeiro momento, pode ser até um pouco excessivo, mas um excesso que pode ser flexibilizado”.
O excesso no outro lado da história é o cerne da questão para Pedro Trengrouse. Ele lembra que a embriaguez ainda é uma contravenção penal e que o consumo exagerado de álcool é o ponto fora da curva. E é muito mais fácil controlar o beberrão dentro das dependências do estádio do que na rua. “A diferença entre o remédio e o veneno é a dose”, filosofa. “Qualquer coisa em excesso pode ser prejudicial à saúde. Se o problema é o excesso, vamos combater isso controlando. É muito mais fácil controlar dentro do estádio, quando você sabe o que está vendendo, qual o preço que está vendendo.”
São duas visões para combater a violência no futebol brasileiro. De vez em quando, o álcool pode contribuir para ela, embora a bebida seja um protagonista ocasional, aquela estrela que aparece em uma ou duas cenas de uma temporada. As torcidas organizadas brigam porque gostam de brigar, com ou sem cerveja, dentro ou fora do estádio, no Brasil ou em Marte. E como frisou Trengrouse, nenhum estudo conseguiu relacionar diretamente a proibição à queda da violência no esporte. Afinal, quase sete anos depois, continuamos com as mesmas discussões, na mesma missão ingrata de controlar a estupidez das pessoas. E às vezes elas serão estúpidas, estejam bêbadas ou sóbrias, e isso é muito difícil de evitar.
A contratação do meia Kaká não é o único passo do Orlando City para cativar
os torcedores brasileiros. O clube pensou até na cor da camisa para conseguir
o objetivo.
Ao ser fundado em 2010, o uniforme da equipe tinha a cor vermelha. O roxo e
o branco eram secundários. Desde 2013, quando o brasileiro Flávio Augusto
da Silva, 43, se tornou proprietário do time, o roxo passou a ser predominante
no uniforme.
"Quando decidimos pela cor roxa foi por entendêla como uma cor neutra.
Nenhum grande clube do Brasil tem essa cor no uniforme. Não haveria
resistência. Por isso, roxo é nossa cor principal", diz o carioca admitindo que
uma das metas do clube é ser o segundo time de cada brasileiro.
Para a ideia vingar, Silva sabe que é necessário ter resultados expressivos.
"Como é o nosso primeiro ano, esperamos ter uma participação relevante.
Temos muito o que aprender, mas queremos chegar nos playoffs, que
correspondem às quartas de final. Nosso projeto é disputar o Mundial de
Clubes em três anos", diz.
O investimento em Kaká já ajudou. Ele é o jogador mais famoso do clube e a
presença dele fez todos os ingressos para a estreia do time contra o New York
City, no domingo (8), esgotarem rapidamente.
A equipe também comercializou 14 mil season tickets (pacote de ingressos
para toda a temporada),que variam de 450 a 1.400 dólares.
"Kaká é o nosso embaixador nos EUA e em todos os continentes. Ele
movimenta a cidade. As pessoas estão entusiasmadas nas ruas. Fechamos
dezenas de patrocinadores. Ele é a figura central de nossa estratégia", diz
Silva.
O orçamento do clube americano com futebol é de 11 milhões de dólares (R$
32 milhões) por ano.
EMPREENDEDOR
O brasileiro dono do Orlando City é torcedor do Flamengo e o envolvimento
com futebol surgiu quando morou nos EUA, entre 2009 e 2012. Na época,
acompanhava o filho em treinos e jogos e viu o envolvimento do americano
pelo esporte.
"Vi que era um público muito grande. Muitos pais, mães, famílias, irmãos. O
futebol era algo muito relevante nos EUA", diz.
O retorno que obteve ao vender a escola particular de inglês formada por ele
em 1995 possibilitou que Silva comprasse o Orlando City.
Ele recebeu quase R$ 1 bilhão pela operação ainda no início de 2013. Estudou
o futebol nos EUA e conseguiu virar dono do clube no final daquele ano.
"Quando comprei o clube, ele estava numa segunda divisão. Adquiri com o
objetivo de levar para o MLS [como é chamada a elite da liga], o que exigia
um investimento muito maior".
Hoje, Silva está satisfeito com o investimento, coroado com a vinda de Kaká.
Assim, o Orlando ganhou projeção.
"Tenho relacionamento com o Kaká há quatro anos. Ele foi garoto
propaganda da minha escola. O perfil dele como atleta corresponde ao que os
americanos gostam"