domingo, 24 de julho de 2011

Ministro vê preconceito nas críticas sobre gastos


PRETO NO BRANCO ORLANDO SILVA
Autor(es): Antonio Nascimento, Gérson Camarotti e Sérgio Fadul
O Globo - 24/07/2011


Em almoço servido em seu amplo gabinete no Ministério dos Esportes, em Brasília, o ministro Orlando Silva transpira entusiasmo. Garante que vai dar tudo certo na Copa: "Sabe aquela história de que pênalti devia ser batido pelo presidente do time? A questão dos aeroportos foi assumida pela presidente." Após a salada e o bacalhau com batatas, ele mostrou que adora abacaxi, mesmo que eles já tenham vindo descascados, como os da sobremesa.
O GLOBO: Não sei se há um problema de comunicação, mas vocês vão apanhar muito até a Copa por causa dessa questão do dinheiro público?
ORLANDO SILVA: Mais? De que temas você fala?
Do BNDES dar R$ 400 milhões para construir as arenas. Dá um total de R$ 4 bilhões. O que o governo vai fazer para que a Copa deixe legados para a população?
ORLANDO SILVA: A Copa talvez seja o maior evento do planeta. Porque o futebol é linguagem universal. Nós não fomos constrangidos, obrigados a fazer. O Brasil se colocou, o governo brasileiro assumiu uma série de compromissos. Foi feita uma aposta de que a Copa seria uma oportunidade de mostrar ao mundo este novo país, num novo momento, atrair investimentos, desenvolvimento social, melhoria de infraestrutura... O novo Brasil teria na Copa a principal plataforma de promoção. evidentemente, isso vai exigir investimentos. Muitas vezes me perguntam: quanto vai custar a Copa? E uma resposta difícil. Muitos temas que trabalhamos hoje são necessidade do Brasil e não da Copa. Aeroporto é Copa? Aeroporto é o Brasil. Transporte é Copa? Transporte é Brasil. São investimentos que, cedo ou tarde, o Brasil teria que fazer.
E o dinheiro público?
ORLANDO SILVA: Aí, surge este debate sobre recurso público, as vezes até um debate um pouco mal intencionado. Primeiro, o BNDES vai ser remunerado regiamente pelo empréstimo que faz. O BNDES não está fazendo filantropia, está emprestando e vai receber com juros e correção monetária. Segundo: o BNDES faz isso para várias atividades econômicas, por que não lazer também para uma que vai gerar, até 2014, 700 mil empregos no Brasil? O governo pode se comunicar melhor? Talvez, mas é preciso superar um certo preconceito. Parece, por vezes, preconceito,não sei se é porque é futebol e futebol é modalidade popular... Tem governo que não se incomoda de gastar milhões e milhões de reais na construção de um teatro de ópera numa cidade, o que é muito importante. Mas, assim como tem uma Casa da Música, uma Sala São Paulo, por que não ter um local adequado para a atividade de futebol, confortável, que estimule a busca da sustentabilidade? Temos é que brigar para que não seja elefante branco.
O Brasil, quando fez essa aposta, i ouxe junto a responsabilidade de mostrar um país que funciona, mas na hora de se preparar, de concretizar, as coisas parecem que estão devagar. Além disso, os valo es dos estádios, que chegam a passar de R$ 1 bilhão, não parecem absurdos?
ORLANDO SILVA: Veja, por que R$ 400 milhões? Fizemos um estudo das últimas Copas e Eurocopas e introduzimos uma memória de cálculo que projetava o custo unitário por assento de um estádio padrão Fila. Era algo de aproximadamente R$ 8 mil. Multiplicamos esse número pela capacidade mínima exigida pela Fila, de 45 mil lugares, acrescentamos algo como 5%, para incrementar e cumprir requisitos ambientais, como captação de água da chuva, uso de placas fotovoltaicas para captar energia solar. Acrescentamos recurso para a garantia da acessibilidade, não só para pessoas com deficiência, mas que deem fluxo para a chegada e saída de um estádio. Daí chegamos neste valor. Há dois anos, projetávamos como custo de uma arena de 45 mil lugares em torno de R$ 400 milhões. Se um estado qualquer pedir R$ 500 milhões, não vai ter do BNDES; R$ 600 milhões, não vai ter. Queríamos induzir estádios com a capacidade mínima exigida pela Fifa. Na Eu opa, não tem estádio para 100 mil. Fizemos o nosso dever de casa, ao criar uma linha de financiamento com um teto financeiro para induzir estádios menores. Agora, o governador fala para mim: "Sei que você quer um estádio de 45 mil, mas o da minha cidade tem que ter 60 mil, 65 mil." O limite é do governador. Ele vai fazer as opções e a sociedade local deve interagir, cobrar.
Como 15 mil, 20 mil lugares a mais justificam a estádio custar duas, três vezes mais?
ORLANDO SILVA: Essa é uma média para o conjunto. Você pode pegar um estádio maior, de R$ 950 milhões, digamos, que deve ser o Maracanã. O Maracanã não é um estádio que você começa do ze o. Tem um complicador: o Maracanã você não reforma, restaura porque é um estádio tombado, tem que seguir requisitos do Patrimônio Histórico. O Maracanä vai mexer com a cobertura, que não estava previsto. Mas o Maracanã é o teto. Mesmo o estádio do Corinthians, falam em pouco mais de R$ 800 milhões. E, se eu olho a média do assento, se era R$ 8 mil há dois anos, por estádio no padrão Fifa, no Brasil não vai ser de menos de R$ 10 mil. Tem inflação, aquecimento do setor de construção civil, incremento tecnológico, incremento que a Fifa sugere e que achamos razoável, para dar conforto, segurança e operacionalidade aos estádios. O senhor não acha doze cidades número exagerado, não?
ORLANDO SILVA Foi uma opção que o país fez para induzir doze cidades na Copa..
Desculpe ministro, do pais ou do Ricardo Teixeira...
ORLANDO SILVA: Foi do país..
O Brasil apoiou o pleito do Ricardo Teixeira de passar para doze... ORLANDO SILVA: Lembro como se fosse hoje de uma reunião no Palácio do Planalto com a dição da Fila e, lá, sugerimos que fossem doze cidades. Porque era a chance de induzirmos desenvolvimento em todo o país. Se realizássemos em oito cidades, dificilmente teríamos o Pantanal, a Amazônia dentro, ou o Nordeste com o papel que tem. Ac ditávamos e acreditamos que é bom para o país você ter Copa do Mundo em todas as regiões.
Mas tem cidade só com quatro logos...
ORLANDO SILVA: Mas e daí? Você vai ter uma promoção turística fantástica nestas cidades.
Vai ter qualificação de serviço, legado de transporte, de mobilidade urbana. E preciso ver o conjunto e não ver a Copa apenas como as 64 partidas de 32 seleções durante um mês. A Copa vai promover o país, difundir destinos turísticos, gerar empregos e induzir desenvolvimento. Claro, temos que dar a justa destinação aos estádios. Um bom exemplo, Cuiabá: vai fazer um estádio da dimensão que a Fifa quer e depois vai diminuí-lo.
E as torcidas na Copa? O senhor imagina fluxo de turistas, na sede de Manaus, par exemplo, num jogo entre Lituânia e Eslovênia?
ORLANDO SILVA: Acho difícil essas duas seleções virem para a Copa. A Fila escolhe os cabeças de chave. E pouco provável que a Lituânia seja uma delas. Será um país central do futebol, como Alemanha, Inglaterra.. A Argentina poderia ir jogar em Manaus. E um país muito querido nosso (risos). E tem o ambiente da Copa, um evento de motivação geral, muita gente que curte futebol.
Ministro, imagine cinco mil ingleses tendo que se deslocar para Natal, Recife, Fortaleza, Manaus, Cuiabá ou outra sede, num tempo rápido. Com esses ne opor tos...
ORLANDO SILVA: Mas a Copa não é hoje. Mas no ritmo que as coisas estão andando...
ORLANDO SILVA: Havia grande foco nos estádios. Agora, esse assunto está equacionado coma solução de São Paulo. Todos estarão prontos a tempo. E com antecedência. No caso dos aeroportos, a presidente criou um ministério específico, mudou o comando da Infraero, abriu para a iniciativa privada. E esse não é um problema para 2014, mas para hoje. Em 2010, o movimento cresceu acima de 12%. E vai crescer mais e anualmente. Hoje, a Infraero tem R$ 5,6 bilhões para medidas gerenciais. Aeroporto é problema? é. Tem solução? Tem. Sabemos quais são e estão sendo adotadas? Sim.
Vai morder a língua quem fala em vexame na organização da Copa de 2014?
ORLANDO SILVA: No Brasil, a turma fala que não vai acontecer, que vai dar errado. Mas não tem problema. O importante é acontecer. Não me incomodo com cobranças de órgãos de controle, da imprensa, de autoridades, estrangeiras ou brasileiras. A questão do aeroporto é um problema que a presidente Dilma enfrentou no início do governo. Não tem aquela história de que pênalti é tão importante que deveria ser cobrado pelo presidente do time? Então, aeroporto é a mesma coisa. Virou assunto da presidente da República.
Indo para as Olimpíadas de 2016, o senhor ficou frustrado por não comandar a Autoridade Pública Olímpica (APO), cama anunciou o então presidente Lula?
ORLANDO SILVA: Não. Ao contrário. Quem falou em Copenhague (na escolha da cidade-sede da Olimpíada de 2016) foi o Sérgio Cabral. No dia seguinte, o Cabral levantou o assunto, do meu nome, e o Eduardo Paes falou: "Tô dentro". O presidente Lula A Copa do Mundo vai permitir promover o país internacionalmente, difundir destinos turísticos, gerar empregos e induzir desenvolvimento também. Nunca assumi para mim uma posição como essa.
O Lula pediu que eu não fosse candidato (a deputado) por isso. Só que não foi esse o entendimento do meu partido. E também não foi o entendimento da Dilma. Quando me convidou para ficar no governo, ela me disse:"Quero separar a Copa dos Jogos Olímpicos. A única similitude que há entre.eles é que são eventos esportivos. Mas são temas diferentes." E ela tinha absoluta razão. A Copa exige um tipo de concentração e esforço e as Olimpíadas outra concentração e outro esforço. O COI (Comitê Olímpico Internacional) e a Fila, cada um tem peculiaridades. Participei do projeto (da APO) e estou satisfeito. Meirelles (Henrique Meirelles, presidente do Conselho Olímpico) agrega à imagem internacional do Brasil. É muito prestigiado. Márcio Fortes (escolhido para comandar a APO) foi meu colega de governo Lula Tenho interagido com ambos Estamos em boas mãos.
No Rio, há a autoridade olímpica municipal, a estrutura não está ficando grande demais?
ORLANDO SILVA: O que vejo é um esforço conjugado de. criar mais sintonia com o prefeito, a presidente. Vamos encontrar um modelo justo. Em Londres, por exemplo, o prefeito é um chanceler da cidade. Faz a promoção, atraiinvestimento. No Brasil, o prefeito cuida do transporte e outras coisas. O governador é responsável pela segurança. E a União tem seu papel chave. No Brasil, a autoridade olímpica (ODA) não é igual à de lá, onde a ODA concentra todo orçamento, a execução. No Brasil, não é assim. E um consórcio que reúne os governos federal e estadual e a prefeitura. São muitos órgãos.
Não há risco de divergências dificultarem as decisões?
ORLANDO SILVA: Não acredito. Esse projeto vai exigir muita habilidade de três personagens: o Meirelles, o Márcio Fortes e o Eduardo Paes. Porque os jogos acontecem no Rio. O contrato do COI é com o Rio. Se encontrar o justo equilíbrio desses três, essa engenharia terá sucesso extraordinário. E o Eduardo é a peça-chave, a figura central dos .logos de 2016. O sucesso dos Jogos passa por ele. E o Eduardo é um workaholic, trabalha que nem um condenado.
O Brasil não tem uma agência de. controle do doping. E é péssimo para o pais não ter a sua agência.
ORLANDO SILVA: É preciso ter vigilância maior. No bolsa atleta, todo atleta do programa pode, a qualquer tempo, ser testado no doping. Criar a agência é atarefa da vez. Temos uma oposta em discussão. E preciso botar de pé a agência, mas ela só não basta. Precisamos disseminar a cultura do jogo limpo ë ter equipamentos de última geração para aferir. Já temos recurso, na UFRJ, para construir nova sede do laboratório de controle de dopagem. Falta enviar o projeto da agência ao Congresso.
Isso demora?
ORLANDO SILVA: Não. No Congresso, quando se há entendimento, vota rápido. E que, em Brasília, quando se fala em criação de órgão, a primeira pergunta que aparece é quantos cargos serão criados. Imagino que não vamos virar 2011 sem ter a agência criada.
No Pan foram constatadas irregularidades. O ex-ministro Agnelo Queiroz enfrenta hoje problemas na Justiça. O senhor não teme que esses fatos acorram na Copa e nas Olimpíadas?
ORLANDO SILVA: E preciso ter um projeto consistente para a magnitude desses eventos. Se pegar o projeto original do Pan, nota que era insuficiente. O dossiê olímpico é completamente diferente, absorveu tudo que o Brasil precisa fazer para realizar os jogos com sucesso.
A crise no Ministério dos Transportes pode atrapalhar o andamento das obras para a Copa e as Olimpíadas?
ORLANDO SILVA: Qual crise? (risos). Não. Os ajustes da presidente servem para aperfeiçoar a atividade do ministério. Na Copa, as intervenções principais são dentro das cidades. E o ministério que cuida é o das Cidades. Essas instabilidades não vão impedir que as coisas aconteçam em 2014. Mas tem que andar mais rápido. Claro!
Qual sua vivência com o futebol?
ORLANDO SILVA: Torço pelo Vitória (BA). Fui na inauguração do Barradão (estádio do clube) como torcedor. Nunca tive obsessão em ser jogador.
O senhor era bom de bola?
ORLANDO SILVA: Era bom de bola, sim. Jogava no meio campo e gostava de ver o Falcão jogar. Mas fui influenciado também pela geração de prata do vôlei. Também vi a seleção de basquete, de Carioquinha, Marquinhos, Marcel O desafio agora é fazer com que essa molecada possa praticar esportes na escola.
O senhor falou do Bolsa Atleta, quanto desse programa está direcionado para formação de atletas com potencial olímpico?
ORLANDO SILVA: Hoje, o Bolsa Atleta chega a todos os atletas olímpicos e paraolímpicos. Se continuarem três anos competindo, recebem uma bolsa. O primeiro, segundo e terceiro colocados em torneios nacionais e internacionais recebem o Bolsa Atleta. O primeiro, segundo e terceiro das olimpíadas escolares e universitárias também. Antigamente só recebia quem não tivesse patrocínio. Acabamos de mudar a lei e vamos permitir também quem tiver patrocínio. E criamos uma bolsa nova, a Podium, de valor mais alto, para os melhores dos melhores atletas.
A maior crítica do pessoal de esporte é a inexistência de um projeto esportivo no Brasil. E o partido do senhor (PCdoB) controla o Esporte. Há muitos anos no país.
ORLANDO SILVA: Há muita coisa em curso. Algumas questões são aparentes e outras não. O próprio Bolsa Atleta é uma expressão de reivindicação de atletas brasileiros de décadas.
# O Brasil não investe muito na ponta e pouco na formação?
ORLANDO SILVA: Não. Um tema tem a ver com outro, são duas faces da mesma moeda. O alto rendimento é o espelho que motiva a atividade física. Motiva a formação das novas gerações. Por outro lado, existe um déficit grave de infraestrutura esportiva no Brasil Assinamos 13 mil contratos de 2003 para cá para construir ou reformar equipamentos esportivos em cidades.
Sempre que tem rolo com emendas parlamentares aparece um monte delas destinadas a quadras poliesportivas. Deveriamos ter quadras poliesportivas em cada cantinho do pais.
ORLANDO SILVA. O problema é que o Brasil é muito grande. Dos 13 mil contratos que assinamos - em 2010 foram dois mil contratos - foram entregues umas sete mil. Entregues, concluídos, medidos pela Caixa Econômica Federal. Hoje, a gente contrata a quadra, mas sabe como é que eles pagam? Depois que a Caixa vai lá e mede. Não tem hipótese de repassar o financeiro para uma cidade e esse dinheiro sumir. O Brasil tem pouco investimento no esporte. Um país que estiver entre os 10 melhores do mundo, que é o que queremos ser daqui a seis anos, tem três, quatro vezes mais recursos que o Brasil. Hoje, todas as estatais. apoiam alguma modalidade. Temos uma lei de incentivo fiscal para o esporte que também não caiu do céu. Há problema de infraestrutura e procuramos enfrentar, incentivando até emendas parlamentares e botando no orçamento do Governo.
E o esporte nas escalas?
ORLANDO SILVA: Nossa ideia também é fazer crescer programas de parceria do esporte com educação nas escolas. Isso para mim vai ser um mantra. Felizmente, o Haddad (ministro da Educação) hoje falou: topo, entendi, concordo, vamos entrar e vamos fazer. Este ano o desafio é pôr em cinco mil escolas e beneficiar um milhão e cem mil crianças. No contra turno da escola, ter atividade esportiva, Criamos o programa Segundo Tempo, o problema dele é que a escala do programa não vai acontecer só conosco. Ou entra o MEC ou entra a Secretaria de Educação ou não vai acontecer. Com o MEC, com a secretaria vamos chegar em 10 milhões de alunos em três ou quatro anos.
Vocês vão bar car as custos dessas atividades no contraturno?
ORLANDO SILVA: E o MEC também, até porque lá tem receita vinculada para isso. A segunda medida tem aver com a lei aprovada no Congresso e mexe com a gestão. A gestão do esporte nosso está amadora. Vai ter sistema de metas. O governo pode até aumentar o financiamento do esporte, desde que aquela confederação estruture o sistema de metas. O hóquei sobre grama, por exemplo, a meta pode ser se classificar para a olimpíadas, por exemplo. No vôlei, o ouro olímpico.

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